quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A SAGA DO PRODIM

Por José Reinaldo Tavares



Nesta semana, li um bom artigo do professor José Lemos, que foi um excelente secretário de Agricultura no meu governo, e ele relembrava que há cinco anos, quando da faina diária de entregar os recursos do Prodim às comunidades mais pobres do setor rural maranhense, ao sair de um dos mais entre os mais pobres, São João do Carú, nosso helicóptero caiu após decolar.
Antes, estivéramos em Bom Jardim, onde assinamos diversos convênios com associações comunitárias e no mesmo ato já liberávamos a primeira parcela dos recursos pedidos e aprovados por toda a comunidade. Estas comunidades já haviam passado por amplo processo de eleição de prioridades com a participação vibrante e interessada de todos. Nesse processo que se iniciava com um elenco que às vezes começava com trinta projetos, após muitos debates, chegava-se a cinco ou seis projetos mais importantes para todos que assim, com completo envolvimento daqueles, a fiscalização dos recursos passava a ser de amplo interesse de todos. Isso evitava ao máximo o desvio de recursos pelas lideranças, pois estavam sendo acompanhados e fiscalizados.
Era evidente que dessa maneira os recursos seriam aplicados, como foram, e essa metodologia se impôs nos longos debates que precederam a aprovação do projeto pelo Banco Mundial, o que aconteceu entre os técnicos do banco e do governo do estado. Era uma tentativa de evitar o que havia acontecido anteriormente no estado com outros projetos de combate à pobreza, cujos recursos, como todos sabem, eram distribuídos aos políticos por intermédio de associações que só existiam no papel e com prestações de contas fabricados em escritórios em São Luís. Uma tragédia.
José Lemos lembra ainda que mais de trinta por cento dos recursos foram alocados para abastecimento de água com a perfuração de poços, vindo em segundo lugar as casas de farinha, modernas, higiênicas, que serviam para aumentar a renda das comunidades. E além disso, diversos outros tipos de projeto foram atendidos.
Isso ajuda a explicar porque mais de oitocentos mil maranhenses deixaram a extrema pobreza no período em que governei o Maranhão. Esses e outros projetos levavam recursos diretos às comunidades pobres. Entre muitos outros projetos importantes, destaco o Pronaf, em parceria com as Casas de Agricultura Familiar, que de R$ 30 milhões por ano, passou para R$ 380 milhões por ano. Não foi por acaso que conseguimos êxito tão grande.
Pois bem, um projeto como o Prodim, hoje extinto, foi aprovado pelo Banco Mundial em tempo recorde. Pelo Banco, teríamos começado a entregar os recursos para as comunidades já em final de 2004. Mas faltava uma aprovação, quase um registro de tão simples do Senado da República, e aí vimos em toda a plenitude o tipo de política mesquinha e destrutiva da oligarquia Sarney. A ordem, que alcançou até senadores de outros estados, como me disse o senador Garibaldi Alves, do Rio Grande do Norte – tenho testemunhas – era não deixar aprovar o empréstimo.
Essa ordem foi cumprida fielmente e só conseguimos arrebentar o bloqueio com a marcha de 18 mil pessoas em São Luís, seguida pela viagem a Brasília de grande número de trabalhadores rurais que entraram no senado exigindo a aprovação do empréstimo Prodim. Aquilo despertou o interesse de senadores de outros estados, que colocaram o assunto em pauta e o votaram, para grande surpresa dos senadores do Maranhão, que boicotaram até onde puderam, a aprovação do projeto. No sítio eletrônico Youtube pode-se encontrar o discurso do senador José Sarney na sessão, quando bradava que 'aprova, mas o dinheiro não sai'. No entanto, para decepção do senador, e graças ao trabalho de Simão Cirineu, e ainda à cooperação do Banco Mundial, escandalizado com aquilo, e à pronta intervenção de Eduardo Campos, presidente do PSB, que me colocou em contato com Lula, o presidente da República me ouviu e garantiu a aprovação do projeto por parte do governo, expressando na ocasião que aquilo já era demais.
O acidente com o helicóptero foi muito sério e nos salvamos todos, quase sem escoriações, graças à grande perícia do piloto, que conseguiu levar o helicóptero em queda para um local deserto e de terra que amorteceu muito o baque. O helicóptero teve perda total. Deus nos ajudou.
Para evitar o medo e continuar o programa, tão importante para as comunidades, no dia seguinte estávamos em outro helicóptero indo para Guimarães, Porto Rico e Pindaré.
Hoje tudo é lembrança. O Prodim não existe mais, atestando a irresponsabilidade com que o Maranhão é conduzido. A miséria, o abandono, a falta de água, esgoto, a falta de tudo no meio rural só se agrava. Não existe nenhum esforço para interferir no estado de pobreza que domina o Maranhão e aprisiona o seu povo. Na verdade todos os programas que visavam o combate à pobreza não existem mais e a governadora até acha que aqui não existe pobreza e que o estado é rico.
Agora chega a notícia que o hospital de referência, um grande projeto do governador Jackson Lago em Presidente Dutra, está abandonado e quase fechando as portas. Mais sofrimento para a população da região.
Desta vez o senador José Sarney perdeu a paciência e ligou para seus defensores da liderança do governo na Assembleia. Agradeceu a intenção, mas pediu que não o defendessem mais, pois só pioravam a situação. Cada vez fica pior.

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